quinta-feira, 12 de novembro de 2015

A chuva de novembro é, na verdade, uma tempestade.

(Não é um texto como os outros daqui, mas as vezes a alma precisa gritar.)

Algumas crianças passam por algum "dano" em sua infância, algo que faça com que elas sofram e adquiram maturidade para enfrentar tudo de cabeça erguida. Já meu trauma não foi durante a infância, talvez bem mais recente que isso, aliás, ano passado. Quando perdemos um alguém, é como se o chão sumisse, a brisa passa a bater com mais força até nos derrubar, e então, definhamos. Coisa que jamais havia acontecido comigo, pois por incrível que pareça, sempre me julguei uma pessoa forte em relação aos baques que a vida dá. E eis porque novembro, que deveria ser doce, é o mais amargo de todos os meses para a minha pessoa.
Está perto de completar um ano que perdi minha tia, minha segunda mãe, a mãe dos fins de semana, que me viu crescer ao lado de seus pequenos sendo um provável exemplo. Ela me ensinou tanto, que até longe daqui anda me ensinando, e acabou criando as duas pessoas que mais me fizeram amar no mundo. Chamo de primos por pequenos detalhes técnicos, mas me atreveria a chamá-los de irmãos o tempo todo. E juntamente com minha mãe dos cabelos encaracolados e silhueta encorpada, perdi um irmão, não daqueles que estão o dia todo em casa e que sabem cada detalhe de nossa vida. Mas aquele que cuidava do meu anjo mais velho, que fazia com que as pessoas não o consumissem nesse mundo desesperador em que ele vive. E cuidava do meu mais velho, fazendo com que eu sempre o amasse muito por esse fato, como uma criança ama sua Dona Cila que cuida de si. E se eu contasse que ainda sinto o coração apertar quando alguém beija minha testa? Como ele fazia aos domingos de manhã, quando chegava anunciando sua felicidade simplesmente por acordar e estar perto de nós.
Desde que tudo aconteceu, não tenho coragem de falar sobre nenhum dos dois. Mas as lembranças e as saudades são como estilhaços que fazem com que o inteiro se dissipe, e assim estou, com muitos fragmentos guardados, e colocando um pouco de atitude para escrever. Porque a escrita sempre foi o grito da alma, e a poesia faz com que os pequenos pedaços se juntem, assim como a brisa que volta a soprar leve. Coisa que há um ano não tem feito.
Caso haja dúvidas de como estão as coisas sem vocês, devo dizer, tia, que sua pequena se tornou a mulher mais linda que se pode conhecer, e por mais que a vida tenha me afastado dela, algumas coisas não mudam, o intocável se mantém intacto. Ela esteve comigo há uns dias, me contou sobre sua adolescência caótica, sobre os rapazes que fizeram seu coração balançar e sobre como sente falta de estar ao meu lado. E as vezes é difícil explicar o quão a família é. Ela chorou enquanto eu lia um dos textos que fiz pensando nela, e era como se ela tivesse voltado à infância, vi em seus olhos cheios de lágrimas que por mais que a vida te pressione, certas coisas jamais mudarão.
E meu anjo mais velho, continua dando bastante trabalho, ainda brinca comigo daquela forma pesada que só ele consegue, e passou a beber um pouco mais que antes. Frequentemente o pego vendo suas fotos e falando sobre você, mas felizmente a fase de não conseguir olhar mais a dor o
atrofiando passou.
Espero que continuem cuidando de mim, dos pequenos e do meu grandão seja aonde estiverem. Porque se minha fase de trauma aconteceu por um motivo, certamente foi para descobrir como tomar conta deles como vocês fizeram.
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