terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Uma versão da Dama e o Vagabundo.

(Sim, é a história de mais um casal que me inspira. Indico "You know i'm no good", faixa número 14.)


Poderia ser uma carta ao homem da minha vida, que quando lida pode-se ouvir uma trilha sonora romântica ao funo, pássaros cantando e todas as demonstrações de romanticismo clássico e piegas da vida usual. Sim, poderia ser uma carta. Sim, poderia ser ao homem da minha vida. Mas é apenas um relato do moleque que ganhou meu coração. Dessa forma, pejorativa e rude.
"Ei, seu moleque, dá para parar de me encarar dessa maneira e abrir caminho de uma vez?", e essa é nossa frase. Poderia ser um trecho bonito de Los Hermanos, um refrão meloso de Jorge e Mateus ou uma coisa mais vintage como uma balada dos anos noventa que fala sobre se sentir vivo e essas loucuras melodramáticas de casais falsos, mas não é, consiste na frase que proferi no instante em que ele simplesmente paralisou na minha frente e me olhou como se dissesse "Essa vai para nosso convite de casamento". Ele foi diferente, e eu gostei.
Eu? Moça comum, durona de certa forma, não me via apaixonada em hipótese alguma, colecionava homens e casos, tinha um repertório pronto para quem ousasse se aproximar com intenções mais sérias e odiava homens de revista. Exato. O mesmo perfume, a mesma calça cáqui, o mesmo cabelo milimetricamente penteado, a mesma barba feita cuidadosamente e o mesmo sorriso congelado.
Ele? Rapaz de rua, andava desleixado, não ligava para vírgulas ou metáforas porque era o único ponto final desejado por todas em contos de fadas. Cabelo desgrenhado, perfume absurdamente forte, bermudas grandes e sempre em sua moto que parecia ter sido conquistada em uma aposta de bar.

E a história? Ele mudou cada detalhe em mim. A partir do momento em que o conheci era apenas ele e um resquício de nós.
Minhas manhãs apreciando a chuva, meus risos soltos, meu olhar distraído, meu novo gosto musical, minhas novas manias, minhas novas gírias, tudo era ele. Passei a acreditar em saudade, já que ele se afastava e a vontade era de correr em sua direção abraçando-o por trás, ouvindo-o resmungar sobre como sou criança. Passei a acreditar em felicidade, da maneira mais literal possível, estava feliz brigando, sendo amiga, sendo namorada, me tornando amante, sendo erro e me tornando acerto, estava feliz simplesmente por estar. Passei a gostar de dançar, já que insistiu exaustivamente na primeira vez em que fomos a uma festa decente. Passei a buscar malandragem em requinte, tinha excessos dele em meus poucos, e poucos dele em meus muitos.
Mas como o previsto, como um moleque faria, causou danos, não como nas nossas noites de discussão, mas como um alguém que desiste da felicidade por falta de comodidade. Eu jamais correria atrás dele, era durona de certa forma e não me via apaixonada em hipótese alguma. O problema é que eu estava, justamente pelo moleque que havia esbarrado uns anos atrás, e como ele me mudou, corri atrás e finalmente assumi, havia aprendido que o homem da minha vida era aquela junção de bases desestabilizadas que me fez encontrar um equilíbrio.
E hoje escrevo cartas implícitas para ele, em silêncio, claro. Porque tem um sono leve e às vezes deposita os braços em minhas pernas enquanto me acomodo com caneta e papel, e assim me faz notar que é um rapaz que já havia sido deixado, e que já encontrou. Me encontrou e se encontrou.
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